“Eu não escondo o meu rosto”

Segue um brilhante texto – só que ao contrário – sobre os “black blocs” (considere que a definição utilizada de “black bloc” é a mesma dos partidos autoproclamados esquerda e da revista veja). Assim como os ursinhos carinhosos, e futuros candidatos a vereadores, o autor do texto não esconde seu rosto e acredita nas manchetes da Folha. Boa leitura!

Retirado de: http://juntos.org.br/2013/10/eu-nao-escondo-o-meu-rosto/

“A Folha de S. Paulo traz em sua manchete, hoje, a notícia de que 95% dos paulistanos rejeitam os “black blocs”. Neste dado, duas questões chamam a atenção. Por um lado, é assustador o esforço da classe dominante em ter como alvo os black blocs. Toda sanha policial e repressão é justificada por sua existência. Com isso, esconde-se o fato do próprio fenômeno dos black blocs já refletir as deformações do sistema em que vivemos, em que boa parte da juventude é formada num contexto de profunda violência e repressão, sem qualquer perspectiva de futuro.

Ao mesmo tempo, fica claro o evidente: a tática dos black blocs é nefasta para o movimento de massas e tende a afastar o conjunto da população das manifestações.

Essa compreensão é fundamental. Sobretudo, diante de um dado que a Folha, hoje, busca mostrar de maneira tímida: 66% da população apoia as manifestações. A ampla maioria. Um número estrondoso se levarmos em conta a campanha homérica que tem feito a burguesia brasileira para tirar as pessoas da rua. Todos os dias, Jornal Hoje, Jornal Nacional, todos os telejornais e até a TV do metrô exibem fartamente cenas de violência, com o único intuito de afastar as pessoas.

Entretanto, reverter junho é uma tarefa muito dura. Que ninguém se esqueça de que, até recentemente, a maioria da população simplesmente desaprovava os protestos.

Foi a experiência da luta das tarifas que deixou conclusões duradouras. As instituições do sistema — principalmente, os “políticos”, seus governos e suas polícias — seguem odiadas pelo povo. E todos sabem que a luta muda as coisas, como mostraram os 20 centavos.

Esse cenário desespera a classe dominante. Por isso, no melhor exemplo da “barbárie” capitalista, a polícia e os governos atuam por generalizar a violência. Buscam apresentar como que uma anulação de vetores — a PM e os black blocs —, justificando a escalada repressiva que, sabemos, visa ao conjunto das manifestantes e ao direito de manifestar.

Está claro: não estamos mais em junho. Mas junho joga profundamente a favor de nós. As encruzilhadas para os “de cima” são complexas.

A esquerda, o conjunto dos ativistas e a vanguarda de junho precisam ter coragem e compreender a necessidade da atuação política, da construção de alternativas amplas e do diálogo com a massa da sociedade. Nesse momento, nosso papel não é “quebrar tudo”, mas, sim, levar tudo e todos para rua por uma luta massificada. Isso é ser radical. Isso é enfrentar os governos, seus aparatos repressivos, suas instituições e o sistema. É nesse ponto que se dá a diferença com os black blocs. Saber que o culpado é o Estado e que a violência estatal não pode ser comparada à violência de indivíduos não significa que, dentro das manifestações, dos movimentos sociais, sindicatos, em suma, nas ruas, não devemos apontar claramente que os black blocs desmobilizam a sociedade, assustam as pessoas que poderiam lutar do nosso lado, têm um método antidemocrático (por respeitar tão somente suas “táticas”, e não as decisões coletivas) e jogam pelo isolamento do movimento de massas.

Nós queremos derrotar nossos inimigos, e não cair em suas armadilhas. Queremos tomar as lições de junho. Defendo profundamente o direito daqueles que o fazem, mas estou todos os dias na rua e discordo da tática dos black blocs. Estou todos os dias na rua e não escondo o meu rosto.

* Pedro Serrano é estudante da USP e militante do Juntos!”

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